domingo, 24 de julho de 2011

Li Harry Potter porque não tinha você.
Ouvi Adele porque não tinha Chico.

domingo, 17 de julho de 2011

Pterodátilos, ou uma imagem da destruição



“Eu não gosto de Harold Pinter. Prefiro peças mais leves, de preferência com uma canção ou outra”
Essa foi uma das primeiras frases que me chamou a atenção em Pterodatilos, texto genial de Nick Silver e, logo nas primeiras cenas é assim que o público, de classe média, que costuma frequentar o Teatro FAAP, percebe que será o espetáculo. Marco Nanini é Ema, uma adolescente de classe média que acaba de encontrar o amor perfeito. A sua casa é perfeita, ela é descolada e tem tudo o que quer. A mãe entra em cena. Rica, poderosa, com vestidos novos e tudo o que precisa, o cenário se desestabiliza, mas nada que alguns remédinhos não resolvam. O irmão entra em cena, um homosexual, ou bichinha diria seu pai, portador do vírus da AIDS e, a partir de então, o cenário se destrói, as estruturas se destróem, aquela família se destrói, mostrando quase um espelho, onde o ser humano é completamente passivel de destruição. o cenário, que era agradável se torna o teto de um cemitério onde estão enterrados fósseis de pterodátilos, a família, tão estruturada desmorona, revelando toda a hipocrisia que há por traz da sociedade contemporânea, o humor negro se transforma em quase monólogos, onde as personagens não se escutam, ressaltados por Ema, que insiste em dizer que não escuta. Ou melhor, que não quer escutar. O público percebe então que aquela não é uma das peças leves, e a presença de uma canção ou outra é substituída pelos sub graves que fazem tremer a platéia e geram mais incômodos ainda.
Felipe Hirsh foi brilhante na direção, e Daniela Thomas ainda mais brilhante na elaboração e destruição do cenário.

quarta-feira, 13 de julho de 2011


Assistir a um espetáculo do Zé Celso é necessário! Assistir a um espetáculo do Zé Celso de frente para o mar é mais necessário ainda!
O espetáculo diz tudo o que eu, enquanto artista, queria dizer. Talvez de uma forma que eu não usasse, mas uma forma válida. E se não fosse válida não seria história do nosso teatro. Ali fala-se do Brasil, das raízes, de rituais. Fala-se de questões que estão na mídia, questiona-se o uso desenfreado da tecnologia, fala-se de união civil entre homossexuais, da questão do artista, da mulher, do aborto, questiona-se a instituição Igreja, brinca-se com Deus, ou seja, trata-se das relações humanas, sejam elas no Brasil de Oswald de Andrade, no Brasil de hoje ou em qualquer lugar do mundo.
Eu tinha uma impressão pre-conceituosa e equivocada em relação à participação do público. É apenas um convite. Nada ali foi forçado ou indelicado. O público realmente faz parte daquele ritual da forma como escolhe fazer. Se escolhe apenas assistir há espaço para isso e é essa a sua forma de celebrar. Se escolhe participar do jogo, é acolhido e essa torna-se a sua forma de celebração. Tudo se torna natural, humano. Até o que não deveria ser, mas é. É o ser humano/social revelado na sua essência. É naturalista e simbólico. É agressivo e delicado. É cansativo e prazeroso. Afirma e questiona. Todas as contradições estão ali. Por isso, eu diria que, mais do que necessário, é essencial, com todas as possibilidades que a palavra traz.

quarta-feira, 6 de abril de 2011





Ela caminhava sozinha. Longe de um tempo que não fosse apenas o seu, da sua solidão, da sua respiração, dos seus desejos e anseios. O corpo ainda salgado da água do mar, e todo o verde ao redor, alheia às pessoas que iam e vinham, como se estivessem em algum tipo de universo paralelo. Estava feliz. Estava onde queria, como se nada nem ninguém, como se nem o passado nem o futuro pudessem interferir naquele pequeno momento de vida.
Eis que viu uma placa. Azul como o céu, que se juntava ao verde do fundo, como se fossem uma coisa só. O coração disparou levemente, e nos lábios, um pequeno sorriso se abriu. Entrou como se fosse a pessoa mais importante do mundo. O ar ao seu redor tinha uma leveza e uma cor como nunca vira antes. Cumprimentava com um sorriso cada pessoa que ali estava. Naquele momento qualquer encontro seria uma troca, um lampejo de vida compartilhado, carregado de pensamentos felizes. Caminhou duas quadras, como se o mundo acabasse na terceira. E se acabasse naquele momento e naquele lugar, talvez não fosse tão ruim assim. Ia em uma contagem regressiva, 111, 109 e finalmente, ao lado daquele muro verde, com folhas e uma singela parede de pedra, avistou o número 107 e uma simples placa que a fez lembrar que é preciso acabar com a tristeza e é preciso inventar de novo o amor.
E uma lágrima boba caiu...


)5/01/2011