quinta-feira, 30 de setembro de 2010

ELIANI HYPOLITO
TEATRALIDADES CONTEMPORÂNEAS
PROFESSORA: SILVIA FERNANDES
PAPER DO LIVRO: A EXIBIÇÃO DAS PALAVRAS. Uma exibição (política) do teatro, de Denis Guénoun

Optei por iniciar o paper, fazendo um pequeno resumo do primeiro capítulo do livro “A exibição das palavras”, de Denis Guénou, apenas para uma contextualização do que virá a seguir, e buscando pontos em comum com a leitura do texto L’invention de la Théatralité, de Jean-Pierre Sarrazac. Nele, o autor coloca o teatro como lugar público e do púlico (segundo a concepção grega) que, diferente das outras artes (com excessão da música e da dança) necessita de uma reunião de pessoas para acontecer, logo, um ato político. Segundo ele, perdemos a atenção em relação à representação, para dispensá-la ao representado, ao conteúdo, e cita como exemplo disso o fato de a platéia ser apagada e somente o palco ser iluminado.
É um ato político a escolha do lugar, da hora e da composição do espaço. Isso formula, uma espécie de discurso em relação à cidade (polis).
Coloca a arquitetura como primeira instância que ordena a representação (optei por usar sempre a palavra representação no lugar de teatro, para ressaltar essa idéia de reunião). Em seguida, coloca que a maioria dos teatros historicamente conhecidos (e aqui, teatro como lugar em que se dá a representação) tenham uma arquitetura de forma circular: a greco-romana, a elisabetana e a dita à italiana, cuja circularidade é assumida, sobretudo pelos balcões, já que o círculo é uma boa disposição para ver e ouvir e que gera uma misteriosa “boa relação” entre o palco e a platéia, à qual todos os atores se referem, sem conseguirem defini-la a não ser por uma espécie de sensação enigmática mas incontestável. E acrescenta ainda que o círculo é uma disposição necessária, que permite que o público se veja e se reconheça enquanto grupo (característica que o teatro e o esporte tem em comum) e que há uma afinidade entre a origem do teatro e a democracia.
“Enquanto o o teatro subsistir, por mais enfraquecido que ele esteja, resta algo da comunidade desejada, do conhecimento, do compartilhar. E, portanto, do círculo”
Em seguida ele trata da questão da iluminação cênica, e o coloca como uma forma de repressão em relação à representação, uma vez que, nas épocas fortes do teatro a assembléia dos espectadores é visível. Quando se mergulha os espectadores na obscuridade e os separa do palco, a platéia se esquece, se ausenta e, embora ali ainda possam ouvir os seus próprios ruídos e silêncios, ela está fundamentalmente excluída da representação, apesar de ser o seu fundamento primeiro.

Aqui faço um parênteses para citar o nosso ‘amigo’ Roubine, que gerou tantas questões na nossa última aula, que diz, em sua Linguagem da encenação teatral que “ um dos fenômenos de importância decisiva para a evolução do espetáculo teatral, na medida em
que contribuiu para aquilo que designamos como o surgimento do encenador foi a descoberta dos recursos da iluminação elétrica”
Em seguida, Guénoun trata do espaço entre as primeiras fileiras de platéia e o palco, como um espaço que se dá espontaneamente pelos espectadores. E aqui entra num ponto que, particularmente me interessa muito quando ele coloca que os gregos inscreviam nesse espaço as evoluções do coro, e que até onde se sabe, esse era o elemento mais mais atraente, mais popular da representação. Esse coro não era feito por “profissionais” e sim por pessoas do povo, que participavam da festa e provinham, diretamente da assembléia do público. Futuramente esse lugar veio a ser ocupado pela orquestra. A essa questão fiz um paralelo com a maioria das festas populares brasileiras , principalmente com o carnaval, que é um dos meus focos de interesse. Finaliza a citação com uma frase que merece ser aqui representada: O palco está no teatro, como o Olimpo está na Grécia, elevado, mais circunscrito. Sarrazac, no entanto, coloca nesse lugar a cortina, como ponto de ligação entre o público e artistas que, quando entreaberta mostra pequenos slides.
Não posso me abster de comentar sobre como o autor termina o capítulo, colocando muito claramente a função dessa reunião de pessoas aptas a tomar decisões políticas, nesse nosso tempo de eleições em que somos obrigados a ver “Tiriricas” e “Malufs”, representando de alguma forma na televisão (me perdoem se algum dos colegas for a favor da candidatura de algum deles). “Entre os gregos, o público é a cidade toda. (...)É, pois, a própria polis reunida que constitui o espaço do fato teatral. É a instância do poder político - apto à decisão política - que assiste à representação.” aqui eu questiono o quanto mantivemos desse caráter político citado pelo autor no nosso teatro (ou nos nossos teatros). E como trazer esse caráter de volta? Está nas mão de quem, dos atores, dos encenadores, do público ou de todos?
E antes de passar para o capítulo proposto, termino com mais uma frase do Guénoun:
“O teatro acontece no espaço do político e produz outro diferente da política). O que?

Agora, partindo para o que, de fato vai ser discutido, no segundo capítulo. Visto que o teatro é uma reunião de pessoas, o autor inicia questionando: essas pessoas se reunem para fazer o quê? Para ver. O teatro só germina quando alguma coisa é proposta à visão. E o que é que o teatro mostra? Ele busca tornar visível o invisível contido nas palavras, na linguagem que, teoricamente não são dessa ordem (do visível). A visualidade do teatro é diferente da grafia ou da pintura. E aqui podemos fazer um paralelo com o texto do Jean Pierre Sarrazac, quando ele diz que o teatro não coloca em cena o real, mas o presente. E mais pra frente acrescenta que a verdadeira cena teatral é a que dá a ver um objeto, um corpo, um mundo, em sua “hipervisibilidade”fragmentada (entendi que ele quis dizer sobre a fragmentação dos elementos que constituem o espetáculo teatral, como discutimos na última aula sobre o texto do Bernard Dort, muito citado por ele). Mas, voltando ao Guénoun, é na sonoridade das palavras que está a sua materialidade, o seu corpo. Porém, os seus significados continuam no campo do invisível. Uma das funções do teatro é dá-las a ver. E aqui podemos começar outra discussão, a partir do conceito de Barthes, de que “a teatralidade é o teatro menos o texto”, citado também por Sarrazac. Me parece que quando Guénou nos fala sobre dar a ver as palavras, ele coloca o texto num lugar que é também da teatralidade, possuindo um corpo, onde a sonoridade e as imagens propostas por ele são também elementos dessa polifonia teatral, que produz algo visível a partir das palavras, com função tanto sensorial quanto estética. E aqui coloco também a questão musical, as vezes tão pouco estudada e pensada como elemento de teatralidade. Se a palavra, quando é “vista” traz sensações, a música tem a capacidade semelhante e até mais instigante, pois traz em si o elemento da subjetividade, que muitas vezes trará diversas sensações possíveis para a encenação. A música para teatro não é simplesmente música. Ela é uma música que traz, em si, a arte de mostrar, de fazer ver.
Em seguida, Guénoun faz uma crítica ao teatro que mostra o visível apenas pelo visível, e que não dá a ver esse invisível contido nas palavras. Uma pura matéria órfã de sua relação com o sentido. E coloca que é entre esses dois lugares que o teatro, realmente se mantém: entre o visível da cena e o invisível da palavra.
A essência do teatro é o pôr/em/cena. E primeiramente, o que é posto em cena é um texto, cuja representação é a sua passagem ao visível. Em seguida vem o ator, como fonte de teatralidade, o elemento pelo qual as palavras passam e ganham corpo. Portanto, o autor e o ator são os dois pólos fundadores do teatro, o primeiro do pólo verbal, textual, e o segundo, do pólo visível, corporal. E é entre a relação desses dois pólos que circula o teatro. É isso que o público quer ver: a passagem do teatro para a cena, e aí sim está a teatralidade, não “excluindo” o texto, mas apropriando-se dele e o
tornando real, visível. Assim, o olhar do espectador pode se confundir com a sua escuta.
E finaliza citando o que eu acrescentaria ao olhar do Roubine, como um terceiro motivo para o surgimento da figura do encenador e do teatro moderno: o cinema, que como “teatro fotografado”, dispõe da vantagem de figurar o que escapa ao teatro e força o teatro a voltar à sua essência, à exibição, diante de um público, daquilo que não pode ser filmado, do momento presente e não de uma simples figuração da realidade.